Atualização (07/10/2022): um colega encontrou um erro na modo como eu construí a variável. Diante disso, aproveitei um tweet antigo para reescrever de um jeito que faça mais sentido, usando uma variável derivada baseada na escala de segurança alimentar usada no IBGE. No entanto, o argumento permanece o mesmo.

A última Pesquisa de Orçamentos Familliares (POF), realizada em 2017-2018, traz informações muito interessantes sobre consumo e condição de vida das pessoas. Um dos temas mais interessantes que foram investigados são as condições de vida dos domicílios. Neste questionário, podem ser encontradas diversas perguntas, incluindo: percepções sobre o fornecimento de energia de elétrica; violência ou vandalismo na área de residência; presença de insetos, ratos, etc.; se há problemas em estar localizado perto de rio, baía, lago, açude ou represa poluídos; entre outras. Sobre aquisição de alimentos e fome, existem cerca de 40 perguntas nesse questionários. Vamos focar na insegurança alimentar, uma variável construída com base numa escala específica; essa publicação traz mais detalhes.

É importante ressaltar que a resposta é dada no nível de domicílio. Por isso, quando fazemos as contas, não é possível saber qual morador passou fome, apenas que pelo menos um deles teve dificuldade. As contagens e proporções aqui devem ser lidas pelo número de moradores em domicílios onde alguém passou fome.

Resultados

Um dos “fatos estilizados” sobre a fome no Brasil é que ela era mais prevalente no Nordeste. Também não é raro encontrar pessoas em Manaus que dizem não existir fome no interior, já que existiria peixe, caça e fruta em abundância e, quando não, o Bolsa Família resolveria.

Mas o que dizem os números?

A Tabela 1 apresenta as proporções de pessoas que moravam em domicílios em situação de insegurança alimentar no Brasil e Grandes Regiões. A região com a maior prevalência de moradores em domicílios nesta situação é o Norte, seguido pelo Nordeste. Note que a diferença entre Norte e Nordeste é estatisticamente significativa ao nivel de 95%.

Table 1: Proporção de domicílios e moradores de domicílios em insegurança alimentar (%) – Brasil e Grandes Regiões, 2017-2018
Domicílios
Moradores
IC(95%)
IC(95%)
Brasil e Grandes Regiões Estimativa Lim. Inferior Lim. Superior Estimativa Lim. Inferior Lim. Superior
Brasil 36,7 36,0 37,5 41,0 40,2 41,8
Norte 57,0 55,0 59,0 62,3 60,1 64,4
Nordeste 50,3 49,2 51,5 54,3 53,1 55,5
Sudeste 31,2 29,8 32,6 34,7 33,1 36,3
Sul 20,6 19,4 22,0 23,4 21,9 24,9
Centro-Oeste 35,3 33,2 37,5 37,8 35,5 40,1
Fonte: POF 2017-2018. Elaboração própria.

A Tabela 2 decompõe estes números por situação do domicílio. Para a área urbana, a diferença entre Norte e Nordeste não é estatisticamente significativa. Para a área rural, no entanto, a diferença é estatisticamente significativa, sendo possível afirmar (com alguma segurança) que a proporção é maior no Norte rural. Em geral, as áreas rurais aresentam proporções maiores que as urbanas. Um resultado um pouco paradoxal é o Sul, onde a proporção de moradores em domicílios em situação de fome é maior na área urbana do que na área rural. Esta diferença, porém, não é estatisticamente significativa e pode ser atribuída à variabilidade amostral.

Table 2: Proporção de domicílios e moradores de domicílios em insegurança alimentar (%) – Brasil, Grandes Regiões e situação do domicílio, 2017-2018
Domicílios
Moradores
IC(95%)
IC(95%)
Situação Brasil e Grandes Regiões Estimativa Lim. Inferior Lim. Superior Estimativa Lim. Inferior Lim. Superior
Urbano Brasil 35,2 34,3 36,0 39,1 38,2 40,0
Norte 55,2 52,7 57,6 60,0 57,3 62,6
Nordeste 47,8 46,5 49,0 51,2 49,9 52,5
Sudeste 31,1 29,6 32,6 34,6 32,9 36,3
Sul 20,8 19,4 22,3 23,5 21,9 25,2
Centro-Oeste 35,8 33,4 38,2 38,1 35,6 40,7
Rural Brasil 46,4 44,8 48,0 52,1 50,4 53,8
Norte 63,3 59,9 66,6 69,6 65,9 73,1
Nordeste 57,9 55,2 60,6 62,8 60,1 65,4
Sudeste 32,5 29,5 35,5 36,1 32,8 39,6
Sul 19,5 17,0 22,3 22,6 19,5 26,0
Centro-Oeste 31,4 28,1 34,9 34,7 31,1 38,4
Fonte: POF 2017-2018. Elaboração própria.

A Tabela 3 traz as estimativas das proporções por UF, em ordem decrescente de proporção. Embora a variabilidade amostral seja muito grande, é possível notar que o Amazonas lidera o ranking. No entanto, é mais realista olhar Amazonas, Roraima, Amapá e Acre como empatados. Possivelmente empatados com o Pará e Mato Grosso do Sul também.

Table 3: Proporção de moradores de domicílios em insegurança alimentar (%) – UF, 2017-2018
IC(95%)
UF Estimativa Lim. Inferior Lim. Superior
Amazonas 70,9 67,9 73,8
Maranhão 68,2 65,4 70,8
Pará 66,8 62,8 70,5
Amapá 65,9 60,5 70,9
Acre 61,4 50,5 71,2
Alagoas 60,7 57,5 63,8
Rio Grande do Norte 59,1 54,8 63,4
Paraíba 56,7 53,4 60,0
Pernambuco 52,0 49,0 55,0
Sergipe 51,7 47,3 56,1
Ceará 50,5 46,9 54,1
Bahia 50,0 47,5 52,6
Tocantins 49,0 43,8 54,2
Piauí 48,0 43,1 53,0
Roraima 43,0 36,9 49,3
Mato Grosso do Sul 41,4 37,5 45,5
Goiás 39,0 34,8 43,4
Rondônia 37,2 32,5 42,1
Distrito Federal 35,1 31,1 39,3
Rio de Janeiro 35,1 31,6 38,7
São Paulo 34,9 32,5 37,5
Mato Grosso 34,7 30,1 39,5
Minas Gerais 34,1 31,8 36,6
Espírito Santo 33,5 30,7 36,4
Rio Grande do Sul 26,1 23,7 28,6
Paraná 25,6 23,0 28,4
Santa Catarina 15,4 13,2 17,8
Fonte: POF 2017-2018. Elaboração própria.

Comentários finais

Outra análise mais complicada, mas muito interessante, seria utilizar variáveis latentes. Mas aplicar essa metodologia em planos amostrais complexos requer adaptações.

A POF também possui um questionário sobre o consumo alimentar que é extremamente detalhado. Seria possivel analisar as quantidades de calorias, alguns nutrientes, modo de preparo dos alimentos, qual refeição, etc. Mas preciso ler um pouco mais a documentação. Além disso, existem duas dúvidas: (1) como lidar com prováveis erros de medida; e (2) acho que é preciso ser especialista em nutrição para fazer análises adequadas.