O último post foi corrido, eu sei. Esse vai ser um pouco menos corrido, acho.
Se você quiser pular direto para a análise, clique aqui.

Muita coisa acontecendo por aqui.
Semana passada, fui pro Rio. Serei propositalmente misterioso neste ponto, mas acho que vem coisa por aí.
Na volta para Manaus, fiz uma mini-maratona para visitar amigos em Brasília nas 7 horas de escala. Para quem eu fiquei devendo visita: vou para a Campus Party Brasília no fim de maio! A trabalho, é verdade, mas acho que rola uns cafés.

😍 #riodejaneiro

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Mas, bem, vamos ao que interessa!

Analisando os microdados do SINASC

Este post é bem curtinho, movido mais por curiosidade do que qualquer outra coisa. O Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (SINASC) é um produto do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS) e, como o nome indica, traz informações sobre os nascimentos ocorridos no país. Com esses dados, eu tento responder duas questões: (1) que horas nascem as crianças no Brasil; e (2) como idade e escolaridade das mães se relacionam com o índice de Kotelchuck.

Horário dos nascimentos

Nas análises abaixo, vamos focar em nascimentos do período 2014-2016 cuja informação da hora exata do nascimento estavam presentes. As observações com dados incompletos ou mal-preenchidos foram descartadas.

O gráfico abaixo mostra como o número de partos se distribui ao longo do dia. O horário de pico dos nascimentos é por volta das 10 horas da manhã, concentrando aproximadamente 7% dos nascimentos ao longo do dia.

As coisas ficam mais interessantes quando separamos por tipo de parto. Enquanto os partos vaginais ficam no intervalo de 3% e 5% ao longo do dia, as cesáreas oscilam significativamente: de 1% às 4 da manhã até 8% às 10 da manhã. Faz sentido que os partos vaginais variem menos, afinal os bebês não nascem com relógio! Isto é, em partos vaginais, a chance de nascer às 3 da manhã é praticamente a mesma de nascer às 3 da tarde. Por outro lado, cesáreas podem ser agendadas e, de fato, exigem uma variedade de cuidados cirúrgicos, como a presença de um médico.1

O gráfico abaixo mostra como o tipo de parto e o horário de nascimento estão correlaciondos. Em geral, as cesáreas tendem a ser mais comuns durante o “horário comercial”, enquanto partos vaginais são mais comuns durante a madrugada. Isso significa que o médico induz cesáreas? Bom, aqui temos o clássico problema de correlação e causalidade. De fato, pode ser que os médicos tendam mais a realizar cesáreas. Porém, só o que sabemos é que cesáreas são mais comuns nos horários em que há mais médicos.

Existem variações significativas entre cor/raça. Por exemplo, para os bebês indígenas, a chance de parto vaginal é sempre maior que 60% a qualquer hora. Já entre o parto de bebês brancos, especialmente entre 7 e 11 da manhã, 3 em cada 4 nasceram de cesárea. De fato, devemos considerar que a proporção de partos domiciliares entre mães indígenas é significativamente maior do que entre mães brancas.

Também há variabilidade quanto às faixas etárias das mães. As mães mais jovens tendem a fazer mais partos vaginais a qualquer hora do dia, mas as cesáreas se tornam mais comuns ao passo em que a idade das mães aumenta.

Índice de Kotelchuck

Os meus conhecimentos da área de saúde se limitam àqueles adquiridos no ensino médio e outras leituras científicas aqui e ali.
Caso você identifique algum erro, pode entrar em contato neste e-mail e eu corrigirei com o maior prazer.

Proposto por Kotelchuck (1994), este índice, também chamado de Índice de Utilização do Pré-natal, usa dados do registro de nascimento para combinar dois aspectos do cuidado pré-natal: quando se iniciou o prénatal (temporalidade) e o número de consultas realizadas (utilização).

Eu não consegui informações detalhadas no site do DataSUS, mas, ao que me parece, estamos usando uma versão modificada deste índice. Usando a tabela de Leal et al. (2004, p. S65), temos:

Índice de Kotelchuck original Índice de Kotelchuck modificado
Não tem. Não fez pré-natal.
Gestantes que iniciaram o pré-natal após o 4º mês de gestação e fizeram menos de 50% das consultas esperadas. Idem mais as mulheres que haviam iniciado o pré-natal após o 4º mês e que fizeram um número de consultas maior do que 50% do esperado, bem como mulheres que tiveram um número de consultas abaixo de 50% do esperado, embora tenham iniciado o pré-natal até o 4º mês de gestação.
Gestantes que iniciaram os cuidados pré-natais antes ou durante o 4º mês e fizeram 50 a 79% das consultas. Idem.
Gestantes que iniciaram o pré-natal antes ou durante o 4º mês e fizeram 80 a 109% de consultas (adequado). Idem.
Gestantes que tiveram o início do pré-natal antes ou durante o 4º mês e tiveram 110% de consultas ou mais em relação ao esperado para a idade gestacional (mais que adequado). Idem.
Nota: Vide Leal et al. (2004, p. S65).

Idade

É interessante ver como varia, ao longo da vida, o percentual na categoria inadequado. O grupo das mães de 10 a 14 anos2 é o único a apresentar um percentual de inadequados superior aos muito adequados. Isso pode decorrer de inúmeras razões, embora uma seja um tanto direta: estas gestações raramente são esperadas, o que pode levar a um atraso no início das consultas pré-natais. Em todo caso, saúde sexual e reprodutiva continua sendo um direito dessa população.

Escolaridade

Correlacionado à isto, temos a questão da escolaridade da mãe. O gráfico abaixo mostra claramente que a escolaridade da mãe tende a melhorar o índice. Isto se relaciona a dois aspectos. Por um lado, mães com maior escolaridade têm acesso a um volume maior de informações a respeito da gravidez, conseguindo se planejar com mais facilidade. Por outro lado, o acesso à educação é correlacionado a outros aspectos, como, por exemplo, o acesso ao serviço de saúde. Assim, é possível que o problema não tenha “causa” na escolaridade, mas seja resultado do mesmo processo que impede o acesso à educação.

Concluindo

Os microdados do SINASC apresentam diversas possibilidades de análise. É possível saber até mesmo o peso do recém-nascido. Enfim, sempre vale a pena investigar o que as bases de dados têm para nos oferecer.

Antes de partir, vou deixar uma música de uma banda manauara. Se o ritmo já é um espetáculo, a letra é outro. Para quem gosta de experimentar coisas novas, essa é a minha sugestão:

Referências

KOTELCHUCK, M. An evaluation of the Kessner Adequacy of Prenatal Care Index and a proposed Adequacy of Prenatal Care Utilization Index. American Journal of Public Health, v. 84, n. 9, p. 1414–1420, set. 1994.

LEAL, M. DO C. et al. Uso do índice de Kotelchuck modificado na avaliação da assistência pré-natal e sua relação com as características maternas e o peso do recém-nascido no Município do Rio de Janeiro. Cad. Saúde Pública, v. 20, p. S63–S72, 2004.


  1. O Brasil é um dos países com o maior número de cesáreas. Em 2017, o Unicef Brasil já fez uma campanha interessante sobre o assunto (embora eu não curta o nome): Quem espera, espera.↩︎

  2. “Mães de 10 a 14 anos” é uma expressão que eu tenho certa aversão. Parece que ela naturaliza um evento que, muitas vezes, é fruto de um crime absolutamente bárbaro.↩︎