No dia que eu escrevo esse post, o Brasil enfrenta uma epidemia severa que custou a vida de milhares de pessoas. O número oficial de mortos já passa de 2.700. E é evidente a subnotificação, já que só os casos graves hospitalizados foram testados.

Hoje, eu não quero fazer gráficos ou tabelas. Eu não quero falar de curvas que se achatam, de picos ou vales. Eu não quero falar de números. Na verdade, eu nunca falei de números. Eu sempre falei de gente. Gente, igual a você que lê esse texto, aos seus amigos de faculdade, sua mãe, pai, avô. Gente.

Eu vim para o Rio no início do ano passado, fazer o mestrado que eu procurei desde 2014. Veja só: não existe mestrado em Economia no Amazonas, muito menos algo voltado para estatística oficial. No departamento que eu fiz graduação, conto nos dedos das mãos o número de doutores.

Hoje, meus pais estão em Manaus. Meu avô e avó também. Todos têm mais de 60 anos e, com exceção da minha mãe, também têm doença neurodegenerativa, diabetes, hipertensão ou doença renal crônica. E eu estou no Rio.

O sistema de saúde de Manaus entrou em colapso. O número de enterros saltou de 30/dia para 100/dia. O cemitério do Tarumã teve de enterrar pessoas usando uma retroescavadeira.

O sítio do meu avô não era muito longe dali, perto da Praia Dourada. Minha família ia lá todo domingo. Eu aprendi a nadar no Tarumã, nos braços do meu pai e na companhia do meu irmão. Foi ali que eu aprendi a ver rastro no chão, comer maracujá do mato, pescar e tantas outras coisas que praticamente ninguém dos outros grandes centros urbanos vai entender.

Uma das melhores memórias da minha infância é de escalar um barranco com meu irmão. Lá do alto, descíamos escorregando. Às vezes, rolando. Eu lembro das poças de barro, onde pulávamos para jogar lama no outro. Lembro da minha mãe vendo os filhos dela, cobertos da lama laranjada.

A imagem da fila de caixões no barro laranjado vai ficar marcada na minha memória para sempre.

Se você responde com “não sou coveiro”, eu realmente não tenho palavras para descrever o quão cretino você é. Se o primeiro pensamento que passa pela sua cabeça é culpar aquelas pessoas pela suas mortes, tem algo muito errado com você.

O Tarumã não é um cemitério de pessoas ricas. E, ainda que fosse, o final é o mesmo: sete palmos abaixo.

As instituições procuram os melhores modelos para calcular a quantidade de infectados e mortos. Em cada esquina do Twitter, um modelista com sua criação, cuspindo números e comentando sobre a qualidade do ajuste ou sei lá o quê.

Eu entendo que as pessoas tentam ajudar das maneiras que acham possível. No entanto, cada modelo adicional é menos útil. No caso de Manaus, o desastre já se concretizou. E me dói notar que a discussão é sobre quantas pessoas vão morrer.

Uma morte é mais do que um número. A morte é o encerramento de uma vida. Em cada um daqueles caixões, jaz uma história que se encerrou. Uma mãe que deixa os filhos. Um avô que amava os netos. Um jovem profissional da saúde que perdeu a vida tentando salvar outras tantas.

Manaus não elegeu o presidente. O Brasil elegeu. O Norte é frequentemente lembrado pela exuberância da Amazônia. Entretanto, as pessoas que ali vivem só importam a cada 4 anos, quando algum político aparece para tomar açaí e pintar o rosto. Que bom que Manaus pôde servir ao seu discurso.

Há algum tempo, eu tento seguir uma regra sempre que escrevo algum texto sobre mortalidade: escreva o texto como se estivesse olhando para as mães das pessoas que morreram. Evidentemente, isso só funciona para quem tem algum resto de bom senso. Infelizmente, antes dos leitos em Manaus terem se esgotado, o bom senso já havia deixado o Brasil.